Já está tudo desmoronando mesmo, mas hoje o dia foi um pouco mais caótico. Aliás, muito.
Chegou a noite e com ela a tendência à escuridão. Não só fisicamente falando. A noite traz sempre outras sombras, reforça outras trevas. Para coroar tudo isso, um blackout. Eu em casa, no breu, sem lanterna e com um único cotoco de vela já bem usado. Ao menos eu pensei que fosse um simples cotoco de vela.
Carreguei o cotoco para o banheiro e tomei um banho demorado à meia-luz. Voltei para o quarto e tranquei-me, como sempre. Deitei na cama e fiquei encarando as rachaduras do teto, como sempre, com a diferença da iluminação, mas o cotoco lá, firme e forte.
Não sei vocês, mas gosto de observar velas queimando até o fim. Geralmente, antes de morrer elas evocam toda a sua força e explodem numa chama enorme, intensa, como nunca antes tiveram. Daí rapidamente cedem e morrem. Mas tinha algo de extraordinário nesta vela. Só depois de mais de uma hora (incrível!) ela começou a mostrar sinais de cansaço. Acendeu a já esperada chama intensa e ela brilhou como nunca, como esperado. Tá, me dei mal, pensei. Odeio a escuridão. Escuridão total pra mim, só seu eu estiver dormindo, o que é raro. Já me imaginei sozinha, mergulhada no breu profundo e, na minha loucura (sim, eu tenho probleminhas), comecei a apelar mentalmente para o cotoco de vela:
- Por favor, a escuridão completa é tão solitária! Hoje eu não vou conseguir...
E ela bruxuleava e ameaçava e de repente reacendia.
- Ai, obrigada! Mais alguns minutos!
Levantei e constatei que já não havia mais nem um cotoco, apenas o pavio, mas um restinho de chama continuava. Ela ia morrendo, fraquejando, perdendo a luz e cedendo lentamente espaço às trevas. Então eu só conseguia ver algumas linhas.
- Ok, se ficar ao menos assim e eu conseguir identificar o contorno de alguns móveis, me dou por satisfeita.
E ela permanecia escura, para logo mais reacender sua luz em um pobre pavio sem cera.
- Puxa! Você é a vela mais valente que eu já vi! Nunca antes um pedacinho de vela viveu tanto!
Agradecida, reforçava a sua luz por alguns instantes, antes de ficar fraquinha de novo, quase em coma.
Esse diálogo (sim porque não há dúvidas que ela me respondia!) durou mais uns quarenta minutos.
Já não acreditava mais em meus olhos! Essa simbiose estava realmente acontecendo! Agradeci:
- Tá ótimo, posso me acostumar com essa meia-escuridão, algumas poucas sombras e linhas. Se permanecer assim até voltarmos ao século XXI, te amarei pra sempre.
Ela permaneceu. Depois foi morrendo de novo, lentamente, se despedindo. Eu também acenei e concordei - pronto! Já estou pronta para a escuridão.
E no exato instante em que ela morreu e deixou sua alma escapar em uma fumaça fininha, a luminária que estava ao lado acendeu. Acabou o blackout.
Tive uns dois minutos de euforia até a razão me bater na cara e dizer que agora sim estou pronta, enlouqueci definitivamente. Me julguem, me processem. Me invejem! Nem todo mundo tem um cotoco de vela como companheiro fiel.
Noite.










