12 janeiro 2014

wave

Minha mãe precisou de ajuda com a linha, então eu fui. Fiz com que um fio de linha vermelha, de tamanho considerável, passasse pelo buraco da agulha facilmente. No instante em que igualei as duas pontas, a notícia veio.

Já há tempos eu desaprendi a rezar. Essa capacidade se foi junto com minha fé.
- "Oh, mas ela tinha tudo!"
- "Era tão jovem e bonita!" 
- "Mas ela tinha um filho!"
- "Ela estava tão feliz ontem à noite!"
Não vai ser tão cedo que as pessoas vão aprender que nada é garantia. Não vai ser tão cedo que as pessoas vão conseguir enxergar além da superfície. Como em wave, lembra? "Os olhos já não podem ver coisas que só o coração pode entender..."

Tenho a cabeça e o coração inquietos de palavras e sentimentos, mas escrevo e balbucio porcamente. Mas, eu te entendo naturalmente, fácil como aquela linha passando pelo buraco da agulha.

25 março 2013

there is a light that never goes out



Já está tudo desmoronando mesmo, mas hoje o dia foi um pouco mais caótico. Aliás, muito.

Chegou a noite e com ela a tendência à escuridão. Não só fisicamente falando. A noite traz sempre outras sombras, reforça outras trevas. Para coroar tudo isso, um blackout. Eu em casa, no breu, sem lanterna e com um único cotoco de vela já bem usado. Ao menos eu pensei que fosse um simples cotoco de vela.

Carreguei o cotoco para o banheiro e tomei um banho demorado à meia-luz. Voltei para o quarto e tranquei-me, como sempre. Deitei na cama e fiquei encarando as rachaduras do teto, como sempre, com a diferença da iluminação, mas o cotoco lá, firme e forte.

Não sei vocês, mas gosto de observar velas queimando até o fim. Geralmente, antes de morrer elas evocam toda a sua força e explodem numa chama enorme, intensa, como nunca antes tiveram. Daí rapidamente cedem e morrem. Mas tinha algo de extraordinário nesta vela. Só depois de mais de uma hora (incrível!) ela começou a mostrar sinais de cansaço. Acendeu a já esperada chama intensa e ela brilhou como nunca, como esperado. Tá, me dei mal, pensei. Odeio a escuridão. Escuridão total pra mim, só seu eu estiver dormindo, o que é raro. Já me imaginei sozinha, mergulhada no breu profundo e, na minha loucura (sim, eu tenho probleminhas), comecei a apelar mentalmente para o cotoco de vela:

- Por favor, a escuridão completa é tão solitária! Hoje eu não vou conseguir...

E ela bruxuleava e ameaçava e de repente reacendia.

- Ai, obrigada! Mais alguns minutos!

Levantei e constatei que já não havia mais nem um cotoco, apenas o pavio, mas um restinho de chama continuava. Ela ia morrendo, fraquejando, perdendo a luz e cedendo lentamente espaço às trevas. Então eu só conseguia ver algumas linhas.

- Ok, se ficar ao menos assim e eu conseguir identificar o contorno de alguns móveis, me dou por satisfeita.

E ela permanecia escura, para logo mais reacender sua luz em um pobre pavio sem cera.

- Puxa! Você é a vela mais valente que eu já vi! Nunca antes um pedacinho de vela viveu tanto!

Agradecida, reforçava a sua luz por alguns instantes, antes de ficar fraquinha de novo, quase em coma.

Esse diálogo (sim porque não há dúvidas que ela me respondia!) durou mais uns quarenta minutos.
Já não acreditava mais em meus olhos! Essa simbiose estava realmente acontecendo! Agradeci:

- Tá ótimo, posso me acostumar com essa meia-escuridão, algumas poucas sombras e linhas. Se permanecer assim até voltarmos ao século XXI, te amarei pra sempre.

Ela permaneceu. Depois foi morrendo de novo, lentamente, se despedindo. Eu também acenei e concordei - pronto! Já estou pronta para a escuridão.
E no exato instante em que ela morreu e deixou sua alma escapar em uma fumaça fininha, a luminária que estava ao lado acendeu. Acabou o blackout.

Tive uns dois minutos de euforia até a razão me bater na cara e dizer que agora sim estou pronta, enlouqueci definitivamente. Me julguem, me processem. Me invejem! Nem todo mundo tem um cotoco de vela como companheiro fiel.

Noite.

04 março 2013

a melhor época de nossas vidas



Todo mundo ignora o aviso e acaba olhando pra trás. É que o passado exerce essa força sobre nós, não dá pra ir contra. O passado pode até ser negro, mas quase sempre é confortável - já estivemos lá antes, sabemos o próximo passo, no surprises. O passado tá sempre na moda, moldado com labels de vintage,  retro ou coisa que o valha.


Aquela época em que seus jeans vestiam perfeitamente, que era mais fácil manter amigos (mesmo sem internet), que você não se importava em sair de casa de cara limpa, que o cara da banda no show de rock focava só em você no meio da multidão, que seu único meio de locomoção eram suas pernas e elas lhe serviam muito bem, obrigada!

Você cresce, amadurece e cria um escudo de proteção que te ajuda a não se descabelar a cada 20 minutos, mas em contrapartida algo se perde nesse processo. Você aprende a se defender, mas desaprende a se curar. Você não tem mais aquela resistência e aquela crença utópica nas pessoas, nas coisas, no destino ou no horóscopo. É um adeus à inocência e você demorou uns 20 anos pra perceber que uma vez chutada, a inocência, esta menina melindrosa, não volta jamais.

E se a sua melhor época estiver acontecendo agora? Se você tem noção exata disso, você é um em um milhão. Geralmente a gente vive e apenas conserva no íntimo que o corpo perfeito no jeans perfeito, aquela troca de olhares, a melhor turma de todo o mundo são apenas daquele momento, e ironicamente, são para sempre.

07 fevereiro 2013

meet puru



Todo fevereiro eu estufo o peito de orgulho e não é do carnaval. Esse fevereiro é ainda mais especial. São dez anos que eu tenho o privilégio de dividir meus caquinhos de vida com Puru. Nesses dez anos ela já me deu lições preciosas, como não aceitar muita frescura alheia. Ela é mestra nisso e um dia tenho certeza chego lá.



Puru tem muita personalidade, mais até do que qualquer gato que eu já tenha conhecido. Dizem que ela me herdou o mau humor. Tudo intriga da oposição - eu é que me inspiro nela.
É muito complicado fotografar Puru. Ela ODEIA câmeras de todo coração, cansam a sua beleza. 



Agora além de mais sábia do que eu, Puru também é mais velha (entre 53 e 63 anos humanos). Enquanto recebo seus amassos e ronronados, faço planos. Planos de muitos fevereiros e que quiçá Puru sobreviva a mim.

02 janeiro 2013

feliz ano novo?



Sempre tive o costume de escrever um post no fim de ano (como 90% dos blogueiros, bem sucedidos ou não). Ano passado foi diferente. 2012 foi um ano tão pesado que preferi deixar ele passar direto para os quintos dos infernos/umbral sem nenhuma despedida. 2012 já foi tarde.

Enquanto digito isto, minha cabeça paira bem distante, cogitando a possibilidade de também deixar partir esse blog. Just let it go...
Tem sido sofrido, deprimente e confuso aqui, um reflexo de tudo que vivo. Acho que jamais deletaria este blog, mas não sei se ainda vale a pena escrevê-lo. Queria escrever sobre a minha vida, mas não estou vivendo de fato. Passo dias sem levantar da cama e consequentemente não saio para fotografar. Meus braços falham frequentemente e desenhar se tornou um desafio doloroso e frustrante. Não há criação nem diferença feita ou caminho construído. Em 2012 eu tive a prova que nem sempre é você que comanda o seu destino.

2013 não está fazendo boas promessas também. Mas em algum cantinho escondido e quase completamente inacessível em meu coração burro, fico esperando que algo mágico aconteça e tudo mude, (desta vez para melhor, por favor) já que eu estou de pés e mãos atadas.

De alguma forma eu bem que gostaria de me juntar à multidão de esperançosos irrecuperáveis torcendo para que 2013 seja diferente e lindo, me devolvendo a joie de vivre que eu tenho certeza, mereço.

05 dezembro 2012

eu preciso saber da sua vida...

Quem convencionou a obrigatoriedade do como vai?
Quando foi decidido que alguém ao encontrar outro alguém deveria antes de tudo perguntar como vai? e/ou suas variáveis tudo bem?, e aí?, e a vida?, mé que tá? 
Não, não me levem a mal. Eu sou ranzinza, mas nem tanto. Não prego aqui o ódio e extermínio do como vai? sincero, só que obrigatoriedade é tão maçante! Pense bem: quantas vezes essa pergunta não saiu de sua boca mecanicamente, mas na realidade você estava pouco interessado na resposta? Resposta essa, que quase sempre também é dada mecanicamente.

Lá está fulano pulando de um edifício de 20 andares respondendo a alguém eu tô bem e você?
E continua o círculo vicioso.
Eu respondo pula essa ou passa. Porque, né? Todo mundo pergunta, mas o que todo mundo quer ouvir é uma resposta objetiva e de preferência, sem demais consequências ou envolvimentos.

Como vai? é quase tão perturbador quanto O quê você faz da vida? Como assim o quê eu faço? Eu vivo, ué! Bem, eu tento... er, sobrevivo. Xiii, já nem sei mais...

Beijo pro Michael Stipe, muso da ironia.

22 novembro 2012

overload



À noite parece que tenho uns cinco cérebros funcionando ao mesmo tempo. Na verdade, ele faz todo o trabalho. Durante o dia todo eu vegeto enquanto ele pondera, analisa, divaga e o caralho a quatro. Daí, à noite, o meu corpo consegue dar alguns passos e isso só parece piorar a tempestade em meu cérebro. Simplesmente não o domino.

Em comparação a zumbis que mantém suas funções primárias, eu só não devoro miolos. Sou um zumbi que devora letras, arte, música e TV e me consumo freneticamente pensando e repensando e analisando a tudo enquanto arrasto meu corpo e tento entender por que diabos eu virei um zumbi.

BRAINS WON'T LET ME BE.
«